Política, Cultura e Ética no Brasil: Um Problema Histórico

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Nos últimos anos, os brasileiros têm ficado estarrecidos com uma sucessão interminável de casos de corrupção envolvendo diferentes setores dos poderes legislativo, executivo e judiciário, tais como o episódio do mensalão, a máfia das ambulâncias, a indústria de liminares e as recentes falcatruas envolvendo uma empreiteira. A Polícia Federal, agindo com empenho e eficiência inéditos, tem realizado um grande número de operações batizadas com nomes sugestivos, as quais tem recebido grande cobertura da mídia e causado forte impacto na opinião pública. Que os políticos brasileiros são, em grande número, indivíduos destituídos de um caráter íntegro e valores sólidos, é fato notório há muito tempo. O que impressiona nos casos recentes é a quantidade de funcionários públicos e até mesmo de membros do judiciário que têm enlameado a sua reputação ao se envolverem com as mais diferentes irregularidades. Por outro lado, alguns segmentos do setor privado não têm ficado para trás, participando de muitas fraudes, golpes e tramas sórdidas com o intuito de lesar o poder público e a população.
Para o governo, as operações e prisões realizadas indicam que finalmente está havendo uma luta eficaz contra o mal histórico da corrupção. Isso ainda está para ser provado, porque as condenações dos corruptos têm sido raras e a impunidade continua a ser a norma. Muito se tem falado e escrito sobre o assunto, mas poucos têm indagado sobre as causas mais profundas desses problemas. Por que são tão generalizadas no Brasil as práticas desonestas, em suas diferentes formas? Esse é um problema comum a todos os povos e nacionalidades ou existe alguma dificuldade específica com relação à cultura brasileira? Parece que os dois elementos dessa pergunta são parte da resposta.
O problema não é novo
A situação vigente no Brasil lembra algumas afirmações dos profetas bíblicos ao descreveram as realidades do seu tempo. Isaías denunciou Jerusalém, dizendo: “Os teus príncipes são rebeldes e companheiros de ladrões; cada um deles ama o suborno e corre atrás de recompensas. Não defendem o direito do órfão e não chega perante eles a causa das viúvas” (Is 1.23). Oséias foi taxativo ao afirmar: “O que só prevalece é perjurar, mentir, matar, furtar e adulterar, e há arrombamentos e homicídios sobre homicídios” (Os 4.2). Na qualidade de porta-voz de Deus, Amós sentenciou: “Porque sei serem muitas as vossas transgressões e graves os vossos pecados; afligis o justo, tomais suborno e rejeitais os necessitados na porta” (Am 5.12). Miquéias também foi implacável ao avaliar os seus contemporâneos: “Ai daqueles que no seu leito imaginam a iniqüidade e maquinam o mal! À luz da alva o praticam, porque o poder está em suas mãos” (Mq 2.1); “As suas mãos estão sobre o mal e o fazem diligentemente; o príncipe exige condenação, o juiz aceita suborno, o grande fala dos maus desejos de sua alma, e assim todos eles juntamente urdem a trama” (Mq 7.3).
As palavras dos profetas mostram que a maldade, a desonestidade e a corrupção são problemas humanos, em todos os tempos, lugares e culturas. Quando se busca entender a origem dos comportamentos anti-sociais, surgem as mais diversas teorias. Os evolucionistas alegam que essas atitudes resultam das experiências do homem primitivo, que vivia num contexto de intensa competitividade. Somente os mais aptos, ou seja, os mais espertos, astutos e manipuladores tinham condições de sobreviver, e esse traço psicológico teria se perpetuado na espécie. Os humanistas insistem que o ser humano é fundamentalmente bom e que os comportamentos anti-éticos são circunstanciais, resultantes da ignorância e do despreparo, e não de alguma distorção essencial da natureza humana. Numa época em que falar em pecado é tabu, torna-se mais difícil considerar uma outra possibilidade: o diagnóstico bíblico acerca da condição humana. Jesus Cristo colocou o problema em termos muitos claros e diretos ao afirmar que as condutas violadoras da integridade própria e alheia procedem em última análise da maldade inata do coração humano (Mt 15.19).
Um termo incômodo
Ao refletirem sobre a situação humana à luz das Escrituras, o reformador João Calvino e seus seguidores utilizaram uma expressão contundente – “depravação total”. Para eles, o homem natural, ou seja, não regenerado ou não redimido, é totalmente corrompido. O que isto significa? Não quer dizer que não haja nada de bom na pessoa humana. Ao contrário, em virtude de graça comum de Deus que atua em toda a criação, a humanidade é capaz de grandes realizações no âmbito da filosofia, literatura, ciência, arte, filantropia, etc. Ainda assim, a natureza humana padece de uma distorção profunda e misteriosa que afeta todas as dimensões da personalidade – mente, instintos, emoções, motivações, vontade. Essa propensão para o erro pode ser refreada por uma série de condicionamentos pessoais e sociais, mas a potencialidade para o mal – por vezes um mal horrível – está sempre presente, vindo à tona quando se apresentam as circunstâncias apropriadas.
Voltando à cultura brasileira, é comum ouvirmos afirmações estereotipadas de que o povo brasileiro é bom, honesto e trabalhador. À luz das Escrituras e da teologia cristã essa avaliação não é inteiramente correta. Lembrando a conhecida lenda a respeito das roupas finíssimas do rei, é preciso ter a ousadia de reconhecer que o rei está nu, que a nossa cultura nacional não é aquele modelo de virtude como tantas vezes se afirma. O funesto “jeitinho brasileiro” serve de acobertamento para um sem número de ações impróprias que prejudicam o Brasil e abortam o seu futuro como nação. É claro que há uma grande quantidade de pessoas que vivem honestamente, trabalham com seriedade, cumprem conscienciosamente as leis, dão uma contribuição altruísta para a coletividade. Ainda assim, o nível de desonestidade e ilegalidade existente em muitas áreas da sociedade brasileira é alarmante, pois os analistas afirmam que o que vem à tona é só a ponta do iceberg. Outra coisa que espanta é a quantidade de pessoas envolvidas em corrupção que ocupam posições elevadas, têm boa formação intelectual e parecem incapazes de deslizes tão graves.
O peso da história
É preciso tomar cuidado com as análises simplistas e as soluções fáceis. Atribuir as falcatruas brasileiras à pecaminosidade humana é necessário, mas não suficiente. Os crimes que nos assombram, sejam eles hediondos ou de colarinho branco, têm outros fatores condicionantes, entre os quais as terríveis deficiências da nossa formação histórica e cultural. Como é sabido, o Brasil não começou bem. Os primeiros moradores brancos eram aventureiros mais interessados em fazer fortuna do que em construir comunidades sólidas. O poder estatal se caracterizava pela ausência e omissão, exceto no que diz respeito ao recolhimento dos tributos. Outra chaga que marcou a formação cultural brasileira foi a escravidão. A igreja oficial era fraca, subserviente ao Estado e pouco fez pela formação moral da população. Durante séculos, o sistema educacional foi extremamente limitado e ineficaz. Assim, enquanto em outras nações desde o início foram cultivados valores como a responsabilidade cívica, o respeito às leis e a probidade no exercício da atividade pública, no Brasil imperou o individualismo (“cada um por si, Deus por todos”) e a ética da conveniência. Em um livro recente (A cruz, a coroa e a espada), o historiador Eduardo Bueno demonstra como o superfaturamento de obras, o desvio de verbas, o nepotismo e outros males estiveram presentes na administração pública brasileira desde o início.

Portanto, a sociedade e a cultura brasileiras têm sido reféns da sua história, encontrando dificuldade em superar as tremendas debilidades da sua formação. Os fatos demonstram que nem mesmo os cristãos evangélicos têm escapado a essas influências negativas e profundamente arraigadas. A cultura brasileira tem aspectos maravilhosos, invejados por outros povos: a alegria, a celebração da vida, o calor humano, a receptividade para com os de fora. Mas temos de reconhecer que valores éticos sólidos e um espírito coletivo não estão entre as suas características marcantes. E isso tem contribuído para que o Brasil se mantenha atrasado em tantos aspectos importantes, apresentando estatísticas vergonhosas em muitas áreas da vida nacional.

Conclusão
Diante dessas constatações dolorosas, nos perguntamos o que se pode fazer. Será preciso que o Brasil tenha de passar por uma comoção violenta, como alguma catástrofe de grandes proporções ou uma guerra devastadora, para que só então encontre forças para reconstruir a sua vida nacional sobre melhores bases? Isso já aconteceu com outros países, mas o preço pago foi terrível. Deus permita que as crescentes pressões em prol da moralidade no trato das questões públicas, o contínuo investimento numa educação que tenha como base a formação do caráter, a promoção de maior igualdade e justiça social, e o trabalho consciencioso das igrejas e de outras instituições da sociedade civil possam, somados, trazer dias melhores para o Brasil. Caso contrário, o futuro das próximas gerações não será auspicioso.

Alderi Souza de Matos

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