As lições da máfia.

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Ex-mafioso e ex-detento, Louis Ferrante virou best-seller e guru do mundo dos negócios.



Um mafioso famoso por liderar bandidos e efetuar roubos audaciosos pode dar bons conselhos de negócios? Louis Ferranteacredita que sim. O americano de 42 anos foi um fiel servidor da família Gambino, uma das mais importantes da máfia de Nova York. Com 20 anos, ele liderava um bando de gângsteres experientes, era

temido e fazia muitos oponentes dormir com os peixes. Ferrante foi alvo de investigações na década de 1990, e seus ternos extravagantes deram lugar ao uniforme da prisão. Ele passou mais de oito anos na cadeia, onde se converteu ao judaísmo, leu os clássicos e virou escritor. Ao sair, publicou um livro com dicas da máfia para executivos que virou best-seller. Hoje, o ex-mafioso divide-se entre os textos e as palestras motivacionais, em um negócio quase tão lucrativo quanto o crime organizado.

Filmes como O poderoso chefão e séries de TV como Os sopranos criaram uma aura de celebridade em torno dos gângsteres. Até mesmo suas mulheres viraram alvo de reality show no programa I married a mobster (Eu me casei com um mafioso), do canal Discovery. “O que parece fascinar as pessoas é existir todo um código de honra na máfia”, afirma o inglês John Follain, autor de Os últimos mafiosos. “A máfia também encanta porque quer conquistar poder, e não apenas dinheiro.” Não há como saber o que motiva o fascínio. Mas ele existe. Nessa indústria, Louis Ferrante é um produto praticamente irresistível. Seu envolvimento com a máfia é real, assim como sua redenção. Não é à toa que, além do sucesso do livro e das palestras, Ferrante está prestes a virar série de TV. O desafio será fazer da ficção algo tão bom quanto a história real.

Ferrante é articulado. Fala rápido, é engraçado. Seu sotaque é de alguém que nasceu e cresceu no bairro nova-iorquino do Queens, um tradicional reduto de imigrantes. Hoje, ele é bem-educado. Quando deixa escapar algum palavrão, se desculpa em seguida. Ele começou a roubar carros aos 13 anos. Sequestrou um caminhão aos 17 e impressionou a máfia. “Se você é bom, não tem de procurá-los”, diz Ferrante. Depois de pouco tempo trabalhando para a família Gambino, ele virou homem de confiança dos chefões. “Amava aquela vida, tinha um ego enorme e achava que era esperto demais para ir para a cadeia.” Em pouco tempo, viu que estava enganado. Aos 25 anos, virou alvo de três investigações. Somadas as acusações, poderia pegar prisão perpétua. Para sua sorte, a principal testemunha de acusação foi descartada, e Ferrante foi sentenciado a 13 anos de prisão.

Na cadeia, decidiu fazer algo até então inédito: ler. Pediu para um colega enviar alguns livros e logo recebeu um pacote. Nele, havia uma biografia de Napoleão Bonaparte, outra de Júlio César e Minha luta, de Adolf Hitler. “Escrevi para o meu amigo perguntando que porcaria era aquela”, diz. O amigo explicou que a vendedora perguntou como era o leitor. “Baixinho e mandão”, respondeu ele. Ela então montou a seleção.

Ferrante não entendia parte do vocabulário e tinha dificuldade para se concentrar. Com persistência e um dicionário, em pouco mais de um ano já dominava obras de Victor Hugo, Leon Tolstói e Fió­dor Dostoiévski. Como aprender a ler foi relativamente fácil, Ferrante decidiu escrever. Assim nasceu seu primeiro livro, situado na Guerra de Secessão americana. Saiu da cadeia com a obra debaixo do braço. Nenhuma editora quis publicar. “Era uma m…, com o perdão do linguajar”, diz ele. Os editores queriam ouvir histórias sobre a máfia, algo que ele poderia contar melhor que ninguém.

Por três anos, Ferrante se recusou a falar de seu passado. Depois de muito negociar com sua agente literária, decidiu escrever sobre a vida nas ruas, alterando os nomes dos envolvidos. O resultado foi o livro de memórias Unlocked (Destrancado), lançado nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha.

Ao mesmo tempo que investia em sua vida como escritor, Ferrante tentou abrir um restaurante com um amigo. Mas foi passado para trás. O contrato de sociedade foi alterado sem ele saber. Ferrante ficou espantado com a trapaça. “Na máfia, você dá a sua palavra e, se mentir, morre. No mundo comum as pessoas mentem o tempo todo.” Ele diz que foi aí que teve a ideia de escrever um livro com valores da máfia aplicados ao mundo corporativo. Mob rules (Regras da máfia, com lançamento previsto no Brasil para 2012, pela editora Saraiva) é um típico manual de negócios, com ensinamentos divididos em pequenos capítulos e muito humor. Não perca funerais, diz o livro, eles são ótimas oportunidades para networking. No capítulo “Não termine no porta-malas de um carro”, ele explica por que é preciso evitar conflitos no ambiente de trabalho. Nada é muito diferente do que outros manuais corporativos já pregaram. Mas é engraçado. E, claro, não há como ignorar a vida de quem os escreveu. “As pessoas gostam de manuais com a história de alguém de fora de seu meio”, diz Elaine Saad, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos. Mas será que a experiência de um criminoso é uma boa fonte para inspiração profissional? “A máfia é muito pragmática e eficiente, mas só porque não tem qualquer tipo de ética”, diz Petra Reski, jornalista alemã que escreveu Máfia – Padrinhos, pizzarias e falsos padres. De terno, gel no cabelo e, ocasionalmente, um charuto, Ferrante está em paz com seu passado. “Não há nada mais de mafioso em mim além das minhas lembranças”, diz. Para ouvir tais memórias, executivos estão dispostos a pagar ingressos caros para palestras, e leitores compram seu livro com entusiasmo. Ferrante descobriu que largar o crime também compensa.

Um mafioso famoso por liderar bandidos e efetuar roubos audaciosos pode dar bons conselhos de negócios? Louis Ferranteacredita que sim. O americano de 42 anos foi um fiel servidor da família Gambino, uma das mais importantes da máfia de Nova York. Com 20 anos, ele liderava um bando de gângsteres experientes, era temido e fazia muitos oponentes dormir com os peixes. Ferrante foi alvo de investigações na década de 1990, e seus ternos extravagantes deram lugar ao uniforme da prisão. Ele passou mais de oito anos na cadeia, onde se converteu ao judaísmo, leu os clássicos e virou escritor. Ao sair, publicou um livro com dicas da máfia para executivos que virou best-seller. Hoje, o ex-mafioso divide-se entre os textos e as palestras motivacionais, em um negócio quase tão lucrativo quanto o crime organizado.

Filmes como O poderoso chefão e séries de TV como Os sopranos criaram uma aura de celebridade em torno dos gângsteres. Até mesmo suas mulheres viraram alvo de reality show no programa I married a mobster (Eu me casei com um mafioso), do canal Discovery. “O que parece fascinar as pessoas é existir todo um código de honra na máfia”, afirma o inglês John Follain, autor de Os últimos mafiosos. “A máfia também encanta porque quer conquistar poder, e não apenas dinheiro.” Não há como saber o que motiva o fascínio. Mas ele existe. Nessa indústria, Louis Ferrante é um produto praticamente irresistível. Seu envolvimento com a máfia é real, assim como sua redenção. Não é à toa que, além do sucesso do livro e das palestras, Ferrante está prestes a virar série de TV. O desafio será fazer da ficção algo tão bom quanto a história real.

Ferrante é articulado. Fala rápido, é engraçado. Seu sotaque é de alguém que nasceu e cresceu no bairro nova-iorquino do Queens, um tradicional reduto de imigrantes. Hoje, ele é bem-educado. Quando deixa escapar algum palavrão, se desculpa em seguida. Ele começou a roubar carros aos 13 anos. Sequestrou um caminhão aos 17 e impressionou a máfia. “Se você é bom, não tem de procurá-los”, diz Ferrante. Depois de pouco tempo trabalhando para a família Gambino, ele virou homem de confiança dos chefões. “Amava aquela vida, tinha um ego enorme e achava que era esperto demais para ir para a cadeia.” Em pouco tempo, viu que estava enganado. Aos 25 anos, virou alvo de três investigações. Somadas as acusações, poderia pegar prisão perpétua. Para sua sorte, a principal testemunha de acusação foi descartada, e Ferrante foi sentenciado a 13 anos de prisão.

Na cadeia, decidiu fazer algo até então inédito: ler. Pediu para um colega enviar alguns livros e logo recebeu um pacote. Nele, havia uma biografia de Napoleão Bonaparte, outra de Júlio César e Minha luta, de Adolf Hitler. “Escrevi para o meu amigo perguntando que porcaria era aquela”, diz. O amigo explicou que a vendedora perguntou como era o leitor. “Baixinho e mandão”, respondeu ele. Ela então montou a seleção.

Ferrante não entendia parte do vocabulário e tinha dificuldade para se concentrar. Com persistência e um dicionário, em pouco mais de um ano já dominava obras de Victor Hugo, Leon Tolstói e Fió­dor Dostoiévski. Como aprender a ler foi relativamente fácil, Ferrante decidiu escrever. Assim nasceu seu primeiro livro, situado na Guerra de Secessão americana. Saiu da cadeia com a obra debaixo do braço. Nenhuma editora quis publicar. “Era uma m…, com o perdão do linguajar”, diz ele. Os editores queriam ouvir histórias sobre a máfia, algo que ele poderia contar melhor que ninguém.

Por três anos, Ferrante se recusou a falar de seu passado. Depois de muito negociar com sua agente literária, decidiu escrever sobre a vida nas ruas, alterando os nomes dos envolvidos. O resultado foi o livro de memórias Unlocked (Destrancado), lançado nos Estados Unidos, na Inglaterra e na Alemanha.

Ao mesmo tempo que investia em sua vida como escritor, Ferrante tentou abrir um restaurante com um amigo. Mas foi passado para trás. O contrato de sociedade foi alterado sem ele saber. Ferrante ficou espantado com a trapaça. “Na máfia, você dá a sua palavra e, se mentir, morre. No mundo comum as pessoas mentem o tempo todo.” Ele diz que foi aí que teve a ideia de escrever um livro com valores da máfia aplicados ao mundo corporativo. Mob rules (Regras da máfia, com lançamento previsto no Brasil para 2012, pela editora Saraiva) é um típico manual de negócios, com ensinamentos divididos em pequenos capítulos e muito humor. Não perca funerais, diz o livro, eles são ótimas oportunidades para networking. No capítulo “Não termine no porta-malas de um carro”, ele explica por que é preciso evitar conflitos no ambiente de trabalho. Nada é muito diferente do que outros manuais corporativos já pregaram. Mas é engraçado. E, claro, não há como ignorar a vida de quem os escreveu. “As pessoas gostam de manuais com a história de alguém de fora de seu meio”, diz Elaine Saad, vice-presidente da Associação Brasileira de Recursos Humanos. Mas será que a experiência de um criminoso é uma boa fonte para inspiração profissional? “A máfia é muito pragmática e eficiente, mas só porque não tem qualquer tipo de ética”, diz Petra Reski, jornalista alemã que escreveu Máfia – Padrinhos, pizzarias e falsos padres. De terno, gel no cabelo e, ocasionalmente, um charuto, Ferrante está em paz com seu passado. “Não há nada mais de mafioso em mim além das minhas lembranças”, diz. Para ouvir tais memórias, executivos estão dispostos a pagar ingressos caros para palestras, e leitores compram seu livro com entusiasmo. Ferrante descobriu que largar o crime também compensa.

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